Graciela Chichilnisky é professora de economia e matemática na Universidade de Columbia em Nova York, uma das criadoras do mercado de carbono no Protocolo de Kyoto e autora de 14 livros, entre eles Saving Kyoto (Salvando Kyoto), no qual propõe um pacto global para minimizar os efeitos das mudanças climáticas. No Brasil, integra a equipe do Instituto Sangari. Ela é defensora da criação de mecanismos que possam ajudar a financiar os custos do combate ao aquecimento global, além do investimento em tecnologias não poluentes.
A sra. propõe alguns modelos de compensação. Quais são eles?
O que proponho é a extensão do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) no Protocolo de Kyoto, que está sendo debatido em Copenhague, de admitir tecnologias que podem sequestrar carbono do ar. Nós poderíamos usar esse modelo de MDL para providenciar US$ 200 bilhões por ano, por um prazo de 10 a 15 anos. A ideia foi recentemente mencionada pelo presidente do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas da ONU (IPCC), Rajendra Pachauri, num artigo divulgado no site da revista Times. A ideia é construir um sistema solar, pode ser na América Latina ou na África, onde esse projeto fosse financiado pelo Protocolo de Kyoto. A experiência proveria energia necessária para o desenvolvimento, combate à pobreza e às adaptações necessárias, além corrigirmos os estragos que já ocorreram.
Na sua opinião, como o investimento poderia ser feito e quem o regularia? Porque o Brasil, como um país continental, com grandes distâncias e também um histórico de corrupção em várias esferas públicas, temo que o dinheiro pudesse desaparecer ou não pudesse ser corretamente aplicado nos projetos.
Acho que num primeiro momento não seria apropriado que o dinheiro de um fundo fosse para governos, mas sim diretamente para projetos privados. Como mencionei, essa proposta de Mecanismo de Desenvolvimento Limpo, de US$ 200 bilhões por ano, por 10 a 15 anos, deveria ser negociável como créditos de carbono, no mercado de carbono.
Como a sra. vê a probabilidade de ajuda dos Estados Unidos para a China, por exemplo, que apesar de em desenvolvimento, é uma megapotência? Isto é, Estados Unidos e União Europeia realmente estão interessados em pagar ou investir nesse tipo de projeto para países ainda em crescimento?
Acredito que sim, porque, se esses projetos tiverem investimento de companhias de energia, o benefício será o de construir novas plantas. Os grandes emissores, os EUA, que também são o maior construtor de plantas de energia, dizem que eles não se importam onde vão construir plantas de energia solar, eólica ou termelétricas. Com minha proposta, a indústria de energia pode vir a se tornar amiga do meio ambiente, em vez de inimiga.
Como o Brasil poderia ser beneficiado e o que a sra. me diz sobre o projeto de redução de desmatamento e degradação (REDD), que também seria financiado nos países em desenvolvimento, para que se mantenham as florestas de pé?
A ideia que está por trás do REDD foi introduzida pela Papua Nova Guiné e é precisamente necessária para a conservação da Amazônia, para o uso sustentável da floresta pelos índios e pelos povos que lá vivem. O Brasil pode se beneficiar com os créditos de carbono por meio do MDL do Protocolo de Kyoto. Esses créditos já beneficiaram o sistema da Uniáo Europeia em US$ 120 bilhões. Dessa forma, o Brasil e sua população podem conseguir um fundo para manter suas florestas e promover mudanças na área de saneamento básico. O REDD está para ser votado em Copenhague.
10 de Setembro de 2010 |
|
|
|
|
|
SÃO PAULO Adriana Fernandes adriana.fernandes@sangari.com +55(11) 9599-6484 BRASÍLIA Luciano Milhomem luciano.milhomem@sangari.com +55(61) 9807-8976 |